Venderam-nos o trabalho como virtudeUma trela dourada, uma jaula sorridenteOito horas por dia para merecer existirPara não desaparecer discretamenteFalam de “dignidade”, falam de “valor”Eu vejo corpos gastos cedo demaisO trabalho nunca salvou ninguémSó ensinou a sofrer em silêncio e em pazNão nos falta esforçoFalta-nos vidaNão nos falta coragemFalta-nos a ferida aberta, assumidaEu quero pleno desempregoFesta permanenteQueimar os relógiosDançar sobre as planilhasQuero o direito à preguiçaSem culpa, sem desculpaCriar, amar, jogarOu morrer — mas não trabalhar para a ruínaA esquerda pinta as correntes de vermelhoA direita só as lustra de ouroGestores contam os nossos minutosSindicatos negoceiam o nosso corpoTodos concordam num ponto centralVende o teu tempo ou desapareceDiscutem salários, horários, metasNunca a mentira que nos apodreceMarx queria novos mestresOs patrões querem a tua mente alugadaEu digo: queimem a porra da fábricaE vejam quem somos sem a entrada controladaChamam-lhe “realidade”Eu chamo-lhe sobrevivência mínimaUm mundo que confunde produzirCom estar vivo é doença sistémicaEu quero pleno desempregoFesta permanenteQueimar os relógiosDançar sobre as planilhasQuero o direito à preguiçaSem culpa, sem desculpaCriar, amar, jogarOu morrer — mas não trabalhar para a ruínaEstou a brincar?Sim.Porque o riso é uma arma.Estou a falar a sério?Completamente.Porque o trabalho mata devagar e com educação.O jogo não é passividade.É ação sem mestres.Criação sem permissão.Vida sem cronómetro.Não nascemos para preencher quadradosNascemos para inventar regrasPara nos perder, nos encontrarFazer da vida algo além de um ecrã fluorescenteDepois do descanso vem o desejoNão a ordem, não o medoTira o chicote das costas humanasE vê-as mover-se por alegria, não por degredoEu quero pleno desempregoFesta permanenteUm mundo que arrisca viverEm vez de alugar a própria respiraçãoQuero o direito à preguiçaComo ato político radicalSe a vida é um jogoEntão eu jogo a sério — sem álibi moralTrabalha se quiseres.Cria se conseguires.Mas nunca mais chames issoA única forma de ser humano.